|

Roberto Campos por ele
mesmo
"Estou administrando a velhice por absoluta falta de alternativa",
disse o economista, diplomata e político Roberto Campos
ao completar 80 anos. Ontem, já a caminho de fazer 82,
em abril próximo, fez seu discurso de despedida na Câmara
de deputados, ressaltando que o Brasil continua com os mesmos
problemas de quando iniciou sua vida parlamentar, como senador,
em 1983. Naquele tempo, disse ele em entrevista aos meios de
comunicação, o país vivia uma recessão
e uma desvalorização da moeda. Agora, é
tudo exatamente igual. Foram 16 anos de "mesmice" em
que nada mudou ,constata.
Desdenhado por alguns, festejado por outros, rotulado de direita,
servidor da ditadura, liberal convicto, defensor das privatizações
e admirado pela coerência ( o humorista e pensador Millor
Fernandes caçoava que coerente é a pessoa que na
vida teve sempre uma idéia só ) Roberto Campos
escreveu um livro de fôlego que repassa muito da história
cotemporânea do Brasil,"Lanterna na Popa", além
de centenas de artigos sobre economia publicados na imprensa
nacional. Sua biografia política vai desde que serviu
o governo Getúlio Vargas, em 1951, quando criou o BNDE
( Banco Nacional de Desenvolvimento), passando pela direção
do banco durante o governo Juscelino Kubitschek ( para quem,
diz sua biografia, traçou as metas de governo), pela embaixada
do Brasil em Washington , no governo João Goulart, ministro
do Planejamento na ditadura ( governo Castello Branco) , embaixador
do Brasil na Inglaterra durante os governos Geisel e Figueiredo
, senador constituinte de 1983 a 1991 e deputado federal eleito
em 1990 e reeleito em 1994.
Qual seja o julgamento em que Roberto Campos se enquadre, seu
pensamento faz parte da vida política e econômica
brasileira. Algumas dessas idéias sustentadas por ele
estão aqui reproduzidas:

"A burrice, no Brasil,
tem um passado glorioso e um futuro promissor".

"Estatização no Brasil é como mamilo
de homem : não é útil e nem ornamental".

"Enquanto o Cruzado pretendia abolir a inflação
por decreto, a Constituição quer acabar com a pobreza
pela lei".

"Quando cheguei aqui no Congresso queria fazer o bem. Hoje,
acho que o que dá para fazer é evitar o mal".

"A diplomacia é como um filme pornográfico.
É melhor participar do que assistir".

"O governo não é uma orquestra afinada. É
um forró com muitos zabumbeiros".

"O Plano Real é um avião com bom desenho aerodinâmico,
mas decolou com pouco combustível".

"Esse negócio de parceria é coisa de homossexual.
Cliente, então, é coisa de prostituta . E terceirização
tem tudo a ver com corno".

"No socialismo as intenções são melhores
que os resultados, e no capitalismo os resultados melhores que
as intenções".

"Não há racionalidade econômica que
resista à alta do feijão".

" Um processo inflacionário agudo é uma guerra
civil incruenta".

"Empresa privada é aquela que o governo controla.
Empresa estatal é aquela que ninguém controla".

"O ideal é que a Igreja, políticos, sindicalistas
e nacionalistas se esforcem menos por nos fazer o bem. Ficaríamos
menos mal".

"O diabo é que uma pequena inflação
é como uma pequena gravidez".

"Os militares só entraram em cena "chamados"pelos
políticos , e, ante o fracasso da classe política,
é extremamente improvável que a retirada militar,
por desejável que pareça , elimine miraculosamente
a "crise".

"O comunismo é bom para sair da miséria, mas
incompetente para nos levar à riqueza".

"A ignorância
de Ulisses Guimarães em assuntos econômicos é
desumana".

"Para Ulisses Guimarães
o supremo valor era a relevância política. Para
mim, a consistência econômica. Eu via no Ulisses
um Dom Quixote da democracia . Ele me considerava um Sancho Pança
da economia. Juntos poderíamos ter atacado mais do que
moínhos de vento. Mas navegamos em barcos separados no
comboio do Brasil, ao longo de meio século, em sol, bruma
e mar revolto , sem um mínimo de sinalização".
|
|