Os ponteiros da vaidade
Marilena Braga

Já passou da hora, já perdi a hora, não é mais hora. São frases banais que se ouvem todos os dias quando alguém se dá conta de que perdeu a oportunidade. Quando essa chance vem agasalhada no manto sério da História, o fato deixa de ser banal. Há alguns dias a imprensa abriu manchetes para o mais novo termo surgido na boca do Presidente: a "baderna". Dois dias antes do alarido causado pelo temor cívico do nosso principal mandatário o jornal O Estado de S. Paulo havia publicado um artigo do ex-ministro e ex-senador Jarbas Passarinho, habitual frequentador da página, justamente com o título que deu o estalo na cabeça do Presidente: Baderna. Fazia Jarbas Passarinho um desabafo de caserna, militar que é, atuante na ditadura ( o que não se exime de assumir) , acostumado a enxergar longe os passos dos governos.

Nas asas de Passarinho pegou carona o Presidente. Está mudando, ao menos anunciou, a direção política dos seus quatro anos de mandato delegado pelo povo. Lembrou-se o Presidente do que o povo é capaz: de votar, se encantar, se animar, se assoberbar, arrefecer, enfurecer e até badernar. Mas de que povo falam tanto o disciplinado Jarbas Passarinho como o instável presidente da República? Seremos nós, cidadãos entranhados na vida produtiva do país ou serão os outros, excluídos de competir no direito à desigualdade, regra primeira da democracia. Como seriam bons todos os governos se não fosse o povo. Como seria bom este governo se não fosse o povo.

Teria podido fazer todas as reformas prometidas: a administrativa, para que pudesse administrar e permitisse aos governos estaduais igual regalia. CPIs vexatórias seriam economizadas a estados embusteiros. A reforma fiscal, para que pudesse tributar e cobrar com rigor e soberania. Não precisaria privatizar o útero do país cedendo as futuras paternidades ao capital aventureiro. Se não fosse o povo , poderia o Presidente dar ao Legislativo apenas um peso e uma medida . Não teria que parlamentar com a iniquidade. Já estaria em prática a reforma previdenciária, arrematada de forma a favorecer a maioria. Já teria o poder judiciário a flexibilidade que reclama e a independência de que se ressente.

Quanto pretérito imperfeito ­ e nele ficam arroladas a educação, a saúde, a capacidade de geração de empregos, a moradia, a fixação do brasileiro na terra, a segurança, a justiça fraterna ­ só porque o povo existe. E tem o poder de somar milhões de votos .Pela primeira vez na história do Brasil esse poder ganha um sinônimo, criado também pela mente híbrida ­ mas não fértil ­ do Presidente: reeleição. Estamos todos atrelados a esta sanha de duplo mandato . Assistimos ­ nem tanto, ouvimos contar por boas fontes ­ a badernas fenomenais por conta da guerrilha interna de Brasília com seus corretores de votos. O lobby da reeleição transforma o povo em objeto, o Presidente em sujeito e o país em verbo conjugado em hora inoportuna.

(Artigo escrito em agosto de 1997, entregue ao diretor-presidente do jornal Gazeta do Povo, de Curitiba, e não publicado).