O Brasil federativo reage e age
Marilena Braga

Os governadores tomaram a cena brasileira . Estão empenhados em salvar a própria pele e o prestígio político. A grande maioria reeleita, alguns em mandato novo, se somam na desordem das contas e criam alternativas. É preciso registrar. Esperidião Amin, governador de Santa Catarina, quer que seja criado um dispositivo na lei, na Constituição, sugere até uma emenda a ser apresentada por qualquer deputado de presépio, que permita intervenção federal em estados que não paguem suas contas. Enquanto isso, Jaime Lerner, do Paraná, e Garotinho , do Rio de Janeiro, se reúnem para capitalizar seus estados a custa de quê? Da Previdência Social, do INSS, esse assombro mal administrado, mal reformado, mal explicado, mal cobrado das grandes empresas nacionais e internacionais.

Pois os dois ­ a idéia foi de Lerner, mas Garotinho diz que "tão longe um do outro, ele no Paraná e eu aqui no Rio, pensamos a mesma coisa". Pronto, a idéia não é mais do Lerner ­ querem que o INSS repasse as contribuições que recebeu, dos atuais funcionários estaduais, quando ainda trabalhavam em outro regime , contribuindo para o INSS. É um dinheiro que o governo federal recebeu e agora não dará retorno, para as aposentadorias , advogam os governadores. Marcaram outra reunião, daqui a um mês, juntando mais governadores, para se transformarem , todos os estados da federação, em credores do governo federal. A idéia é inverter o jogo, para que o governo federal não tenha mais os estados na mão. Jogando parte dos inativos no colo do governo federal os governos estaduais , acreditam, poderão diminuir os gastos com a folha de pagamento de funcionários.

Na contramão, Esperidião Amin, de Santa Catarina, prefere radicalizar: intervenção em estado que se recuse a pagar . Uma ação direta contra o governador de Minas Gerais, Itamar Franco, que declarou três meses de moratória em seu estado. Quanto a ele, a revista "Veja"deu matéria durante a semana passada batizada de "A volta do trapalhão". Nesta semana foi mais branda ,"Ele está radiante". O articulista Roberto Pompeu de Toledo, em observação bem costurada sobre o temperamento do ex-presidente, assina um ensaio com o titulo "Itamar e a manipulação da gratidão". Mas quem guarda tem. Numa edição de 16 de novembro de 1994, quando o governo Itamar Franco estava chegando ao final, o mesmo articulista assina uma matéria de capa da revista com o título "Enfim, um presidente que deu certo".

E lá no texto , admitindo ao final a popularidade do presidente, assinala: "Houve uma vez um presidente que no começo tinha uma namorada e procurava deseperadamente um ministro da Fazenda e no fim tinha um ministro da Fazenda e procurava desesperadamente uma namorada (...) Ou pode ser que ele seja lembrado de maneira mais formal e positiva. Assim: Houve uma vez um presidente que, de início desacreditado, considerado provinciano e despreparado para o cargo, surpreendeu com uma administração honesta e competente e marcou o início da recuperação de um país castigado por uma série de administrações inéptas e corruptas. Sua realização máxima foi dar início à estabilização da economia. Graças ao bom termo a que conduziu o mandato, conseguiu eleger seu sucessor, propiciando ao país uma das mais tranquilas mudanças de comando de sua História".

O Brasil é uma federação. Mal organizada, desconhecida entre si.
Pode deixar de ser. Itamar Franco deu a largada. Os outros governadores pegaram carona. A democracia autoritária está sem bússula. Perdeu o rumo e não dá sinais de que vai encontrá-lo tão cedo. Que os governadores governem, então. A crise serve para que o Brasil federativo se aproxime.