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< capa da edição de 27 de março de 1999



Brilho, luzes, câmeras , ação
Marilena Braga

O Jaime Lerner redescobriu a alma do negócio. Fez do enfadonho horário eleitoral gratuito palanque de campanha publicitária na medida. Mostrou o Paraná como único estado laborioso nesse breu em que se transformou o Brasil. Teve audácias que espantaram os avarentos paranaenses. Ousou tutelar o presidente Fernando Henrique , relatando que a cada vez que o ex- amado do país quer ficar alegre vem ao Paraná. E se sucedem na telinha da TV as imagens da inauguração da fábrica Renault, depois da fábrica Audi-Volks, em seguida a inauguração da Tafisa ( indústria de beneficiamento da madeira), encerrando com a abundância de água da Usina de Salto Caxias, inaugurada por Lerner e Fernando Henrique no último 26 de março .

A energia que virá de Salto Caxias ­ represada no trecho final do Rio Iguaçu ­ passou para o governador Jaime Lerner e seu discurso de otimismo sob a égide do PFL, o dono do horário gratuito na última sexta-feira. Teve a propaganda institucional do Paraná todos os ingredientes para atrair a atenção do público: bons argumentos, imagem alinhada à esquerda, volume de inaugurações nos bons moldes populistas, e cuidado em não deixar que a presença de um presidente da República com prestígio em baixa comprometesse a festa . Fernando Henrique ficou de coadjuvante. Mas levou o oscar de melhor figurino. A camisa xadrez de manga curta mostra que ele ainda tem estilo. Incorporou de caipira básico. Já o Jaime de manga arregaçada não combinou. Onde está o alfaiate novo?

Propaganda feita, Lerner viajou. Foi para a Polônia, receber prêmio. Tem uma coleção deles. Volta no dia 4 de abril. Deixa para trás um PFL dividido por brigas internas. Muito ao seu modo, não permite que o jogo político interfira nos seus planos. Quer esfriar a cabeça. Uma passeada pelo mundo reaviva as ilusões. Fernando Henrique fazia isso quando ele, o Brasil e o Real andavam de mãos dadas. Mas os problemas do presidente são dele. Nunca fez questão de os dividir com os brasileiros. Que se entenda com a meia dúzia de sempre.

Enquanto Lerner está fora, a meia dúzia dele quebra a cabeça com os assuntos de urgência. O pedágio é um deles. Criado no final do primeiro mandato do governador, o pedágio nas estradas federais desgradou os habituais das estradas. Agora, é tema espinhoso. O combustível subiu , apertando o bolso dos caminhoneiros. E o dólar subiu, motivo bom para que os consórcios de manutenção das estradas se considerem no direito de aumentar as tarifas dos pedágios. Querem as empreiteiras um pedágio indexado. O governo embaralhou tanto que não sabe o que descarta. O ministério dos Transportes não quer as estradas de volta. Diz que não tem dinheiro. As empreiteiras não cedem. Para desfazer o acordo inicial, o governo teria de pagar uma multa num valor que não existe nos cofres estaduais.

Que solução será dada? Pedágio mais caro, tudo indica. Quando um estado toma para si as responsabilidades federais, ao invés de mobilizar a população para uma ação popular cobrando os direitos junto ao governo federal ­ no caso , estradas seguras e conservadas ­ parte para a solução mais fácil, dentro do imediatismo na administração. Só recordando, no ano passado, período anterior às eleições presidenciais e para os governos estaduais, o presidente da República era soberano. Quem fosse contra a corrente não se elegia. Bons negócios e boas estradas foram apresentados ao Paraná. Lerner endossou. Agora terá de ser o primeiro entre os governadores estaduais a oficializar a indexação de preços. Subirão os valores dos pedágios .A ira do governo federal já não assusta. Se o Presidente reclamar, Lerner inaugura mais alguma coisa, mostrando ao tucano que só se governa se for possível fazer bons negócios . Para os outros. E com os outros. Pois não viu o Presidente que bela propaganda o PFL patrocinou para o Paraná?

A Usina de Salto Caxias fica no Oeste do estado do Paraná, e é estratégica para o abastecimento do estado , dando uma folga ao sistema gerador paranaense.Tem quatro unidades geradoras e uma potência de 1240 megawatts. É a única hidrelétrica inaugurada atualmente em todo o Brasil. Este ano o consumo energético do Paraná deverá crescer em 7 por cento, um volume maior do que o índice nacional, que deverá chegar a um aumento de 5 por cento.

Boa parte das terras do Paraná foram afogadas para abrigar usinas hidrelétricas. Com potencial maior do que a de Salto Caxias, inaugurada dia 26, existem ainda as usinas de Foz do Areia, com 1600 megawatts e Segredo, com 1260 megawatts. Sem contar a binacional Itaipu , responsável pela maior parte de geração de energia para o Sul e Sudeste do país.

Situada a 650 quilômetros de Curitiba, Salto Caxias vai abastecer com energia uma população de 4 milhões de habitantes . Os investimentos ambientais na área foram de 250 milhões de reais.