A inutilidade democrática
Marilena Braga

As democracias autoritárias são armadilhas que acenam com a liberdade mas condenam, com antecedência, a liberdade de ação e opinião. É flagrante que o Brasil vive hoje essa fase. A CPI ­ Comissão Parlamentar de Inquérito ­ dos Bancos, nascida de um revanchismo do PMDB adessista ao governo federal ( há outra parcela que desde antes das eleições do ano passado preferia vida própria) contra o PFL de Antonio Carlos Magalhães , que está vendo sua CPI do Sistema Judiciário beirar o ridículo ( a intenção inicial, afetar a Justiça do Trabalho, já foi conseguida) está condenada a morrer antes das primeiras palmadas. E a pedido do próprio presidente da República, que pede pressa na conclusão dos trabalhos. Tanto de uma CPI quanto de outra.

O temor do governo é duplo. De um lado, os ecos da CPI , que deveria ser do Sistema Financeiro, mas vêm se prendendo a um banco específico, atingem o noticiário internacional, e a comunidade financeira, que sustenta o Brasil hoje, está esquiva. De outro, as escolhas que o Presidente fez para cuidar do dinheiro do país, todas indicações pessoais suas, se mostraram incapazes de segurar o Real , de ordenar a economia e, pior, estão sob suspeita de arrebanhar, em proveito próprio, o dinheiro brasileiro. Como os brasileiros puderam eleger um governo condenado, em vontade, entusiasmo, emoção, é preocupante. Nos faz concluir que, após 500 anos de ensaios cívicos , não tem noção o país do que quer, do que precisa, do que significa na ordem mundial.

Essa é a maior decepção do governo do atual Presidente. Foi eleito, tanto da primeira vez como da segunda, para assegurar uma legalidade econômica ao Brasil. Foi eleito para instaurar a democracia plena, onde as exigências sociais fossem prioridades : escola, saúde, emprego, moradia. Não conseguiu nenhum de seus intentos, com um agravante. Teve , enquanto a utopia do Real durou, a adesão cega da imprensa, a maior formadora de opinião em qualquer comunidade mundial. E continua tendo, debatendo-se que estão, alguns veículos, entre os interesses empresariais e a responsabilidade de informação. E entre as diferentes opiniões editoriais, porque a liberdade começa no direito de escolha de cada um.

Sem acenos no cais do porto, à deriva em meio a crises institucionais ­ poder judiciário em xeque, sistema financeiro sob suspeita, poder legislativo atrelado a interesses avessos à questão social, movimentos radicais crescendo a ponto de não haver retorno ( o MST de um lado, os ruralistas de outro) doenças epidêmicas ( o cólera e o dengue são presenças vivas) sem um plano de combate, o desemprego como castigo maior para um povo trabalhador e criativo , a certeza de que não há crescimento da produção do país ­ o governo do presidente Fernando Henrique é a somatória da falta de comprometimento que o Brasil tem como nação. Nascemos todos, as gerações durante e pós- ditadura, com um vírus difícil de ser combatido: o de que nossa nacionalidade é vergonhosa e nossa inteligência e talento devem estar sempre a serviço das causas alheias.

Marilena Wolf de Mello Braga é jornalista e empresária em Curitiba, diretora da Prima Donna Marketing Pessoal, Textos e Informação . Criou e edita o jornal Fortuna e Virtude, exclusivo para a Internet.