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Uma polêmica estéril e
perigosa.
Marilena
Braga

O Legislativo veste toga. E os togados ensaiam para ser pianistas.
Não é linguagem cifrada. É o que acontece
no Brasil hoje, este vasto país muito próximo de
uma convulsão patriótica. Como um formigueiro pisado
, de onde as formigas se espalham para todos os lados, desorientadas,
a população brasileira se mexe , em todas as camadas.
Os fatos se sucedem num amontoado de iniciativas que vão
das reuniões emergenciais do setor industrial às
reivindicações classistas por um gatilho dos salários.
Enquanto capital e trabalho se defendem e se misturam, a Justiça
está ameaçada de parar no banco dos réus.
Em contrapartida , os tribunais regionais eleitorais se antecipam
e pedem o fim das regras eleitorais. Uma espantosa troca de papéis.
Reunidos em Palmas, no Tocantins, os 27 presidentes de Tribunais
Regionais Eleitorais mandaram sugestões para a reforma
política propagada pelo Congresso Nacional, mas mantida
em banho-maria até que saia do foco da opinião
pública, isto é, da imprensa, porque opinião
pública é entidade indefinida em países
de democracia autoritária, como o nosso. Enquanto o presidente
do Congresso Nacional, senador Antonio Carlos Magalhães,
ergue a palmatória ameaçando o poder Judiciário,
os representantes desse poder enfileram o que seria melhor para
o país, politicamente.
E o que definem os presidentes dos TREs ? Que a instituição
da reeleição foi um erro. Querem o fim do mandato
duplo, em todas as graduações: presidente, governadores,
prefeitos. Sugerem também o fim do voto obrigatório.
E criticaram a reeleição da forma como foi liberada
em 98: o certo teria sido que os candidatos já em cargos
majoritários fossem obrigados a se desincompatibilizar
para a disputa. Outro ponto polêmico e que vai desencadear
uma onda de protestos entre os parlamentares : pedem os desembargadores
que dirigem a Justiça Eleitoral que seja extinta a chamada
"candidatura nata", um artifício na lei eleitoral
que garante aos detentores de mandatos vaga certa na lista dos
candidatos às eleições.
Nessa polêmica toda o que se vê é que o presidente
Fernando Henrique saiu de cena e no seu lugar entrou quem sempre
esteve no comando: o senador baiano Antonio Carlos Magalhães,
responsável pelo primeiro e pelo segundo mandato do Presidente.
Enquanto pulveriza as atenções com brigas estéreis
entre o poder Legislativo, que domina, e o poder Judiciário,
que desafia , o país fica cego aos problemas econômicos,
as reivindicações trabalhistas ( tudo começou
com a intenção do senador baiano em extinguir os
Tribunais do Trabalho) se perdem em minoria no Congresso Nacional
e o Brasil fica com a cara que sempre teve: a de adulto irresponsável
que só faz o que lhe dá proveito eleitoral. Tudo
o mais fica para fora do fosso físico sugerido no ano
passado para impedir que o povo se avizinhe do prédio
onde funcionam a Câmara e o Senado Federal . Sugerido por
quem? Pelo senador baiano.
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Personagem:
O jornalista e escritor Fernando de Morais está há
três anos escrevendo um livro que tem o senador Antonio
Carlos Magalhães como tema. Autor de "Chatô,
o rei do Brasil", o escritor se especializou em biografias
de personagens famosos. Seu próximo herói é
ACM. O livro está sendo escrito em Paris, onde Morais
se refugiou para traçar o perfil do senador baiano sem
ingerências. Ele confessou já, em entrevista no
ano passado, que não admira particularmente o senador.
Mas é um trabalho que precisa ser feito. Até meados
deste ano a edição deve estar nas livrarias. Será
a apoteose de uma personalidade singular.
Gênio do mal:
A disputa entre Antonio Carlos Magalhães e o Judiciário
já aplacou, ao menos nas repercussões pela imprensa.
Mas no auge das trocas de desaforos o senador da Bahia ouviu
muitas e boas. Sobre a extinção da Justiça
do Trabalho, o jurista Celso Antonio Bandeira de Mello declarou
ao jornal Folha de S.Paulo: "Se fosse para extinguir algo,
melhor seria a extinção desse senador. Não
a física, porque vai contra todos os meus princípios,
mas a extinção política. Esse seria um grande
benefício para o país". Já o advogado
Dalmo Dallari diz que ACM ocupa ilegalmente a presidência
do Senado. Sua recondução ao cargo foi inconstitucional.
Saulo Ramos, também advogado e dos mais conhecidos nos
meios políticos, desafia que "o diabo é fazer
o Congresso Nacional trabalhar. O negócio deles é
aprovar medida provisória".
Todos se manifestaram através da Folha.
Na calada da noite:
Enquanto os desafios eram lançados pela imprensa, de ambas
as artes, ACM e Judiciário, o senador, na condição
de presidente do Senado, produziu um fato de efeito: publicou
no Diário do Senado Federal a extinção da
representação da Casa no Rio de Janeiro, o conhecido
"Senadinho". Com isso, divulgou, conseguiu uma economia
de 300 mil reais por ano nos gastos do Senado. Dos 38 funcionários,
só vão ficar três. Os demais irão
para Brasilia ou se ajustam à demissão voluntária.
Se pôde fazer isso com uma canetada, pergunta-se: por que
não fez antes? |