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Uma mistura explosiva.
Marilena Braga
O governo federal se apavorou no final de semana. Os piratas da Internet,
os temidos e invejados "hackers", uma espécie anárquica que invade os
sites da web, poluiram as páginas ilibadas da Presidência da República
( poder executivo) Supremo Tribunal Federal ( poder judiciário) e Câmara
dos Deputados ( poder legislativo). Os que acessaram as páginas oficiais
na quinta-feira última, dia 17, puderam ler que o governo é sem vergonha
e deveria parar de se ajoelhar diante do capital internacional. Pediam
ainda os piratas - no palanque improvisado - a renúncia do presidente
Fernando Henrique.
A ação da pirataria eletrônica ganhou mais espaço na mídia impressa e
convencional do que os pronunciamentos dos políticos de oposição. Como
não se sabe a origem da invasão via internet é possível que o assunto
morra logo, sem desdobramentos. A menos que os "hackers"voltem à carga.
Se isso acontecer, terá o governo a verdadeira oposição imprevisível.
E com uma visibilidade, via internet, muito maior do que a exposição nos
meios de comunicação convencionais. A página de abertura do site do STF
, por exemplo, informava que no dia da matéria intrusa já havia recebido
2392680 visitas, desde a sua criação, em setembro de 96. Quase dois milhões
e quinhentos mil acessos. Um dado nada confiável, pois a contagem própria
não tem efeito legal, só a do provedor. Mas para quem gosta de números,
contenta.
O fato é que o governo brasileiro está sendo não só cobrado, não só criticado,
não só desacreditado. Está sendo desrespeitado pela via mais aberta e
mais secreta: a internet. Uma linguagem eletrônica desobrigada da ética,
sem controle eficiente pelo Direito convencional - isso é um bem, ou é
um mal? - atenta , vigilante, segmentada, propulsora de reformas , uma
subversiva desde que foi apresentada ao mundo inteiro. A internet pode,
e só ela pode, acabar com o modo deformado da aplicação da ciência política.
Pode porque é livre, democrática e está fora dos padrões habituais das
comunicações. A internet é um poder tão eficaz que pode penetrar nos poderes
formais e causar um rebuliço de fechar a boca dos babões.
As páginas do governo
federal estavam desprotegidas. Os sites responsáveis, os que envolvem
grandes interesses econômicos ou políticos, estão vigiados e imunes a
intromissões dos "hackers", com sistemas de proteção impostos pelo valor
do que guardam. Mas no Brasil os sites oficiais ficam a descoberto. Que
o acontecido sacuda a inércia dos burocratas e mostre ao governo que fachadas
desabam com facilidade. Basta aliar a inteligência e a tecnologia e somar
com o que falta na nossa infantil democracia: ética e compromisso. Uma
mistura explosiva.
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