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Que decepcionante é a
liberdade! O Último Suspiro do Mouro é talvez o seu melhor livro, um verdadeiro libelo em prol da liberdade e uma pequena obra-prima. Foi neste livro que Rushdie atingiu o apogeu de seu modo peculiar de ver o mundo, com um olhar sempre na fronteira do racional e irracional, do fantástico e do real, do Oriente e do Ocidente, da Índia multicolorida e da fria e cinza Inglaterra. Foi também com O Último Suspiro do Mouro que Rushdie descortinou seu drama de artista perseguido, cuja única janela para o mundo era a imaginação. A revogação da fatwa em 1998 trouxe expectativa entre os leitores de Rushdie. O que o escritor que ficou famoso por ser uma espécie de mártir vivo (?) da liberdade de expressão teria a dizer para o mundo agora que estava livre? Nada, seria a resposta. Pelo menos nada de novo. Em O Chão que Ela Pisa Rushdie só faz revisitar os mesmos temas de seus livros anteriores. Pior: se em O Último Suspiro do Mouro a saga da família Zogoiby dava ao leitor a sensação da mais genuína prosa oriental, que invariavelmente nos remete a Sherazade, neste O Chão... Rushdie apenas maquia o mito grego de Orfeu e Eurídice, transpondo-o para o mundo medíocre da música pop. Aliás, adaptar o livro à mediocridade da estética pop é o que Rushdie faz com inegável competência. O livro parece ter sido escrito à maneira única de seus personagens principais, Ormus Cama e Vina Apsara, se expressarem, como cantores de rock que são: o vídeo clip. O livro é um verdadeiro rolo-compressor de acontecimentos que, pela velocidade em que acontecem, só são verossímeis mesmo aos fãs de super-estrelas. Esta inverossimilhança, porém, não atinge o nível do fantástico a la Gabriel García Márquez, simplesmente porque se pretende a real. Ou a uma justificativa à suposta genialidade de Ormus Cama e suas "canções terremotos". O Chão que Ela Pisa parece ser um livro escrito para leitores juvenis, acostumados à linguagem da MTV, incapazes de transporem uma página sem que aconteça algo de imediatamente apelativo. Tentando agarrar o leitor à força para dentro de uma história já contada (e muitas vezes vulgarizada, diga-se de passagem), Rushdie condensa nas primeiras páginas do livro sexo, suicídio, assassinato, amor à primeira vista, escândalos políticos, mitologia rasteira, terremotos, revoluções, serial killers, zoroatrismo, etc., etc. No meio de tantos acontecimentos, a reflexão é relevada a segundo plano. Nas mãos de Rai, o narrador, então, as reflexões se confundem na própria inconsistência do personagem. Rai, Ormus e Vina formam um triângulo amoroso com todos os ingredientes para satisfazer às mais ávidas revistas de fofoca e tablóides. Rai é um fotógrafo bem sucedido e o narrador da história, que ele diz estar contando a fim de resgatar Vina do Inferno, após a morte dela em um terremoto no México. Vina, por sua vez, é uma mistura de Madonna, Janis Joplin e (perdoem-me a heresia) Billie Holliday. Ela vive o lugar-comum da fama promíscua, drogada, engajada e sobretudo falsa. Ormus, compositor e amor nunca consumado de Vina, é uma mistura de Dylan, Lennon e Elvis, ao qual Rai atribui poderes sobrenaturais. Rai e Ormus são indianos com um olho americanófilo. Vina é uma americana com sangue indiano. Rai e Ormus são dois pólos distintos de uma mesma cultura: enquanto o fotógrafo narrador se diz céptico, Ormus é a encarnação de todas as superstições possíveis e imagináveis. Vina seria o ponto de confluência a unir pontos antagônicos numa "pax americana". É nessa relação conflituosa de culturas distintas que aos poucos vão se misturando que o mito de Orfeu/Ormus/Rai e Eurídice/Vina se desenvolve. Rai, porém, ao narrar a história de sua amada e sua descida aos Infernos do mundo pop, esbarra ao assumir-se como céptico e comportar-se como um crédulo. Como um homem racionalista pode crer e fazer crer que Ormus, nascido gêmeo de um irmão morto, possa prever as canções de sucesso no Ocidente exatamente 1001 dias antes disso acontecer? Ou crer e fazer crer que Ormus seja capaz de viver na fronteira entre mundos conflitantes "como placas tectônicas", fazendo dele uma espécie de ser mediúnico ou inter-dimensional, capaz de absorver duas realidades parecidas mas opostas? Enfim, como um homem céptico e racionalista pode recorrer a mitos gregos, indianos e ao zoroatrismo para contar sua história? Simplesmente não pode. Eis aí a inconsistência da narrativa e a fragilidade de Rai como narrador, mesmo que de uma história tão banal. Vina é, aparentemente, o maior trunfo do livro. Assim como Aurora Zogoiby de O Último Suspiro do Mouro, é um personagem forte que assume proporções arquetípicas. Vina é, por assim dizer, um "neoarquétipo" que concentra em si todas as características das estrelas do rock e pop. Não é por acaso que Rai usa de sucessivas hipérboles para descrevê-la, ou então a compare a nada mais nada menos do que Atena, Helena de Tróia, Psique, Medusa, Cinderela e até Dionísio. Vina, ao mesmo tempo, dá o tom de atualidade ao livro, carregando em si toda a caracterização dos loucos anos 60, insanos 70, decadentes 80 e mortais 90. Rushdie, a despeito de ter escrito um livro superficial e cheio de personagens-clichês, continua impecável no que tange à linguagem. Ler Rushdie é como é como ouvir várias músicas ao mesmo tempo e ainda assim absorver desta dodecafonia involuntária estranha beleza e harmonia. O texto de Rushdie flui com perfeição entre as diferentes linguagens. E ele faz questão de usar a maior gama de narrativas possível nas 575 páginas do livro. O Chão que Ela Pisa, como qualquer produto da indústria pop, já está rendendo subprodutos. Salman Rushdie já fez uma leitura dramatizada para uma multidão em Nova York e até escreveu uma música para o grupo irlandês U2. Resta saber se a música, tal como livro, vai ser um sucesso de vendas. Porque, em se tratando de música/literatura pop, vendas é a única coisa que interessa. Criatividade, inovações estéticas, profundidade, isto é coisa de um outro mundo, do qual, infelizmente, O Chão que Ela Pisa não faz parte.
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