A hora da economia responsável Marilena Braga Sabem quantas palestras foram realizadas no Brasil no ano passado? Quinhentas mil. Um número de impressionar, se compararmos com a população economicamente ativa, e com a pequena parcela, cerca de sete por cento do total de brasileiros, com acesso econômico e suporte empresarial para estar na platéia dos privilegiados. Que palestras são essas? De todos os teores, para todos os segmentos profissionais, com os objetivos mais diversos. As palestras estiveram contidas em seminários, congressos, convenções, painéis, fóruns, simpósios, workshops, debates ou até a forma mais simples, a de conferência, onde um especialista em determinado tema faz uma explanação baseado em uma idéia central. São as palestras motivacionais, a descoberta do ano passado em todos os setores. Para este ano, o número de participantes dessa rede de idéias vai aumentar quase o dobro, segundo as previsões das entidades que congregam o setor empresarial, sem contabilizar os chamados alternativos, ligados a movimentos místicos e religiosos de todas as crenças e seitas. Em 98, ainda no auge do entusiasmo com o Plano Real, as palestras tiveram um tema exaustivo e hoje banalizado a ponto de ser evitada a palavra: globalização. O meio empresarial, no embalo da campanha política para reeleições de presidente e governadores, mais eleições para deputados federais e estaduais, somado à renovação de um terço das vagas para o Senado Federal , usou e abusou da globalização recém-descoberta. O mundo se descortinava diante dos caipiras ( no bom sentido. Adoro o jeito brasileiro de ser caipira, quando isso significa criatividade, malícia, um jogo próprio de encontrar soluções ). Mudar para não perder Mas agora a globalização enjoou. A Fiesp, Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, ainda o carro-chefe das ações no meio empresarial, está promovendo debates sobre nação e nacionalismo. Vai chegando a uma conclusão que os Estados Unidos modelo do capitalismo até agora imitado já atingiu há muitos anos: não se prepara recursos humanos de uma hora para a outra. Em curto prazo é possível motivar, mas não manter a chama acessa para que resulte em trabalho e renda permanente. E ainda mais importante: dissociando o trabalho do meio que o gera só é possível criar para o capital de fora, esvaziando a poupança interna. Bom para poucos, zero para o desenvolvimento do país. É por essa nova perspectiva de olhar para a realidade brasileira que as palestras vão quase dobrar este ano, em volume e conteúdo. Com quase 500 anos na cara o Brasil resolveu se interiorizar. Fisicamente e culturalmente. É o tempo de rever a Antropologia, a Sociologia, a Ciência Política, os valores nacionais. De bolso vazio, a cabeça estalando de idéias, as dificuldades encostando em todos , os brasileiros, tanto os que já estavam de vida feita ( não estão mais) quanto os que ainda permanecem na periferia da vida produtiva, concluem que os meios antes utilizados não servem mais. O país mudou. Não se redimiu , nem se penitenciou de uma hora para outra. Mas o susto que só atingiu os que nunca antes palestravam com as próprias deficiências sacudiu a inércia do capital com obrigação de ser responsável dentro do Brasil. |
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