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O Paraná vai descobrir o Brasil
Marilena Braga
"Quanto mais chão, mais paixão". Poesia
de caminhoneiro percorrendo as estradas. Não deve ser
muito diferente da emoção que embala o fotógrafo
Orlando Azevedo, o guia de turismo de aventura Iguaçu
Paraná e o jornalista Fabiano Camargo , que no próximo
dia 21 ganham a estrada para uma expedição de 30
mil quilômetros ao Coração do Brasil, nome
do projeto acalentado há alguns anos por Orlando, viabilizado
pela experiência de Iguaçu Paraná e pela
curiosidade jovem de Fabiano. Uma trinca arrojada que deixa para
trás o conforto e a acomodação curitibana
para compor um Brasil novo em imagens, textos e descobertas.

Os portugueses chegaram no Brasil
há quase quinhentos anos . Orlando Azevedo também
veio de Portugal, e os muitos anos de Curitiba quase apagaram
de sua voz o acento de além-mar. Aportou no Brasil com
13 anos, e está próximo de completar 50. Antes
da fotografia se apaixonou pela música. Foi baterista
do conjunto A chave , entre os anos 68 e 70. Os componentes se
dividiram, dando origem ao grupo Blindagem. Orlando descobriu
na fotografia uma nova forma de expressão. Não
se pode garantir que a definitiva. Para quem amplia horizontes
não há limites. Prova disso é o Museu de
Fotografia Cidade de Curitiba, que criou.
Casado com a também fotógrafa Vilma Slomp
com quem divide o estúdio mais procurado pelas agências
de publicidade , políticos e profissionais à procura
de uma imagem exata é o fotógrafo oficial
do governador Jaime Lerner. Por vários meses, todos vão
ter de se contentar sem ele. "Porque é tamanha bem-aventurança
o dar-vos quanto tenho e quanto posso, que quanto mais vos pago,
mais vos devo". O trecho do soneto 22, de Camões
, pode bem exprimir o que move o fotógrafo Orlando Azevedo
em direção a interpretar o Brasil em imagens novas,
sem preconceitos ou amarras culturais.
De Graciliano a Fabiano
Fabiano Camargo fará o diário da expedição
ao Coração do Brasil. "Iriam para diante,
alcançariam uma terra desconhecida. Fabiano estava contente
e acreditava nessa terra, porque não sabia como ela era
nem onde era", conta Graciliano Ramos , em seu romance Vidas
Secas . O jornalista que segue dia 21 na aventura às vésperas
dos 500 anos do Brasil deve o nome ao pai, o também jornalista
Francisco Camargo , que emprestou do personagem de Vidas Secas
o nome para o filho. A mãe, a também jornalista
Lúcia Camargo, hoje secretária de Cultura do Paraná,
concordou . Isso há 27 anos.
Cultura sempre foi a praça de Lúcia. Em 68, recém-instalada
a ditadura, promoveu no Teatro Guaíra a Primeira Noite
da Poesia Paranaense ( e a última). Sacudiu os quartéis.
Já o Francisco Camargo é autor da melhor manchete
já publicada na imprensa paranaense. "A terra é
de Cretã. Para sempre". Cretã era cacíque
indígena, e lutava pelas terras do seu povo, nas reservas
do Paraná. Morreu por elas. Se os pais têm história,
Fabiano agora fará a dele.
Que já começou, desde a escolha da profissão,
que pratica há oito anos , em textos diversos que vão
de música, esportes radicais, aventura e cultura . Foi
nas entrevistas para a mídia impressa que conheceu os
companheiros da expedição programada. Entrevistou
Iguaçu Paraná sobre turismo ecológico e
passou a consultá-lo como fonte. Com Orlando Azevedo a
mesma coisa. Juntou-se a eles no projeto. Fabiano não
se rotula um jornalista de redação. Não
gosta de ficar fechado. O Coração do Brasil está
na sua medida.
Um nome, uma vocação
Mato e lama é a fórmula da felicidade para Iguaçu
Paraná. Moldado para representar o espírito de
aventura dos paranaenses ( e não é que existe ?),
nasceu com o nome pronto. O pai gostava de nomes indígenas.
E batizou o filho com o nome do Rio que nasce em Curitiba e ajuda
o Rio Paraná a formar as Cataratas do Iguaçu. Um
destino adivinhado? Para definir o gosto do neto o avô
deixou-lhe como herança um jipe ano 51. Iguaçu
tinha na época 17 anos. Hoje tem 37. Já soma 20
anos de aventuras, como piloto de provas off-road , participando
de rallyes e guiando expedições que ele chama de
aventuras, e os outros chamam de ecológicas.
O recado eletrônico no seu telefone já sugere suspense
e um desafio que brinca . A voz se arrasta enfatizando as vogais
: Iguaçu Turismo, Aventuras... O cartão profissional
é um jipe fotografado ao por-do-sol, à beira do
mar. Iguaçu Paraná é um personagem da natureza.
E da mecânica. Tem três jipes que comprou demolidos
e restaurou. Para a expedição Coração
do Brasil montou especialmente um veículo que acomode
as necessidades básicas dos três ocupantes: o Brucutu
será a casa onde a aventura vai descansar nos caminhos
brasileiros.O poeta Tasso da Silveira não poderia imaginar
que em seus versos de Caminho Suave retrataria bem um homem da
aventura: "Eu não busquei este caminho, mas sabia,
desde o começo, que os meus passos rumariam por ele..."
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Um selo para durar
De 21 de abril
até final de novembro
- tempo previsto para
cumprir as três rotas
estudadas , a expedição
que partirá de Curitiba
está a serviço do
programado e do
imprevisível. Por onde passarem - Orlando,
Iguaçu e Fabiano,
passará também
o selo criado para a
aventura cultural e
emocional: um coração
com artérias à mostra, encimando o mapa
do Brasil. Uma marca
criada pelo artista
plástico Rones Dunke,
e trabalhada
fotograficamente por
Orlando Azevedo.
Que se prepare o
Brasil. Antes dos seus quinhentos anos de
descobrimento a
curiosidade da
expedição paranaense
terá muitas
novidades a
acrescentar
a tudo que já é
conhecido.
Toda ajuda é
importante.
O projeto Coração do
Brasil pode ser
conhecido em
detalhes
pelo site
www.coracaodobrasil.com.br

"Porque é tamanha
bem-aventurança o
dar-vos o quanto tenho
e quanto posso, que
quanto mais vos pago,
mais vos devo".
Luís de Camões,
Soneto 22.

"Iriam para diante,
alcançariam uma terra
desconhecida.
Fabiano estava
contente e acreditava
nessa terra, porque
não sabia como ela
era nem onde era".
Graciliano Ramos,
Vidas Secas.

"Eu não busquei
este caminho, mas
sabia, desde o início,
que os meus passos
rumariam por ele...
"Tasso da Silveira,
Caminho Suave,
poema. |