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Símbolo de todos
Marilena Braga
Meu amigo Serginho Maluf, músico
por vocação, publicitário por sobrevivência
, me apresentou a duas palavras e uma conjunção que nunca
mais esqueci. Voltávamos, ele , sua amada Maribel e eu de um domingo
lindo em Antonina, no litoral do Paraná, cidade histórica
onde os curitibanos vão arejar os pensamentos junto do mar , sem
o compromisso de praia , areia e multidão. O mar visto do cais
. Pois voltávamos. Subimos a Serra do Mar com o dia terminando
. O horizonte não tinha mais claridade, só uma pequena faixa
amarela encontrando o azul quase marinho. E o Serginho Maluf se admirou
com a "fímbria do dia". Ficamos os três em silêncio
, reverentes com o jogo de luzes . Chegando em casa, fui direto ao dicionário
ver o que , exatamente, era aquela "fímbria".
Queria dizer franja, orla , até mesmo barra de saia, no sentido
de arrematar alguma coisa. Até hoje quando olho um por do sol tenho
pudores de dizer aos que estão comigo que alí está
a "fímbria"do dia . Mas nenhuma outra palavra expressa
com tanta e tão serena cor o fim da tarde. Ontem foi um dia assim,
em Curitiba, que já tem seu símbolo eleito pela população.
Cartão postal há muito impresso no coração
da cidade, o prédio da Universidade Federal do Paraná foi
o escolhido. Promoção do Banco Itau, em parceria com a Prefeitura
de Curitiba, em princípio a Universidade não constava da
lista dos locais a serem votados. Foi incluída por sugestão
do fotógrafo memorialista da cidade, Cid Destefani, que em matéria
publicada num dos jornais locais a Gazeta do Povo, qual mais ?
estranhou a ausência do nosso símbolo já existente,
apenas não nominado. Daí a uma campanha pró Universidade
foi um pulo.
Perderam para o prédio que há 86 anos abriga a Universidade
Federal pontos de referência do turismo: o Jardim Botânico,
a Ópera do Arame, a Rua das Flores, o Parque Barigui ( todos obras
do governador Jaime Lerner , quando prefeito de Curitiba ) o Parque Tanguá
( começado na gestão Rafael Greca e terminado na atual,
de Cassio Taniguchi) e a Boca Maldita, que não é só
um lugar bem no centro da cidade, é uma instituição
sagrada do poder masculino da cidade. A Boca falou, tá falado.
Pois se a Boca fala, não vota. Quem a população elegeu
foi o prédio da Universidade Federal do Paraná .
Outras capitais do Brasil também têm símbolos já
consagrados. Em São Paulo é a Avenida Paulista. No Recife,
o Rio Capibaribe e suas pontes; em Belo Horizonte, a Serra do Curral;
Salvador, o Pelourinho; Rio de Janeiro, o Corcovado e, em Porto Alegre,
o Monumento do Laçador. A cidade de Curitiba mostrou, mais uma
vez, que não gosta de equívocos com temas sérios.
Ao preterir obras que são marcas registradas de administrações
específicas o concurso do Banco Itau, ao se ater apenas a
elas teria esvaziado o espírito dos curitibanos e escolher
um prédio sede da mais antiga universidade brasileira, os habitantes
da cidade firmaram sua indiferença às marcas pessoais. O
prédio da Universidade Federal do Paraná é de todos.
Curitiba agradece aos arames, acrílicos, parques e bosques que
as criativas administrações nos deram. Mas de símbolo,
não precisávamos . Já tínhamos um, agora definitivamente
revelado.
E o que é que o Serginho Maluf tem com isso? Nada, diretamente.
Ele não é "representativo"da cidade nem opina
com lugares - comuns falando de templo da cultura, berço de gerações,
identidade cultural, essas coisas que de tanto serem ditas já não
dizem nada. Talvez falasse da fímbria do dia, e todos os que sabem
que os sentimentos são sólidos , entenderiam.
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