
Itamar, a imprensa, os fatos e a democracia
autoritária

"De todas as vocações do homem, o jornalismo é
aquela em que há menor lugar para as verdades absolutas. A chama
sagrada do jornalismo é a dúvida, a verificação
de dados , a interrogação constante. Ali onde os documentos
parecem instalar uma certeza, o jornalista instala sempre uma pergunta.
Perguntar, indagar, conhecer, duvidar, confirmar cem vezes antes de informar:
estes são os verbos capitais da profissão mais arriscada e
mais apaixonante do mundo".
A frase acima, entre aspas, é parte de uma palestra proferida pelo
jornalista e escritor argentino Tomás Eloy Martinez na conferência
da Sociedade Interamericana de Imprensa , "Crônica e Reportagem:
em busca de um jornalismo para o Século XXI". |
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É oportuno reproduzir alguns trechos da longa profissão de
fé no jornalismo futuro que o argentino , autor de "Santa Evita",
faz em uma bem cuidada na pesquisa comparativa do jornalismo hispano-americano
com sua vertente européia e emocional declaração
de amor à arte de narrar , a essência do que interessa ao leitor,
segundo o jornalista argentino.
Fortuna e Virtude selecionou alguns trechos da palestra, buscando uma reflexão
entre essa proposta de futuro e o estardalhaço que se viu na imprensa
brasileira a propósito da atitude do governador de Minas Gerais,
Itamar Franco, ao declarar que não vai pagar , por três meses,
a dívida de seu estado. O que mais se viu, nos noticiários
de televisão e matérias de jornais , foi o palpite , o escárnio,
a indignação, o enfrentamento da opinião da imprensa
com o fato em si. Narrativa nenhuma. A história da dívida
ninguém contou. Nem a de Minas nem a de outros estados . A imprensa
passou batida diante de um fato que poderia recontar toda a vulnerável
situação econômica brasileira. Ao invés de ir
fundo no endividamento dos estados, elevou Itamar Franco ao papel de herói
caboclo às avessas. Foi um instrumento do poder, e não o contrapoder.
O poder se serviu da imprensa como um prato fundo de uma suculenta feijoada. |