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< capa da edição de 02 de março de 1999




Uma questão soberana.
Marilena Braga

"Às favas com a Unesco," disse em seu comentário da Televisão Iguaçu, Canal 4, de Curitiba, o empresário Paulo Pimentel, presidente do complexo de emissoras de televisão e jornais no Paraná. Ex- governador, ex-deputado federal, Pimentel não se desvinculou dos temas políticos do estado. E fez uma defesa acirrada dos direitos da população da frontreira Oeste- Sudoeste, prejudicada pelo fechamento da Estrada do Colono, 17,6 quilômetros dentro do Parque Nacional do Iguaçu.


Localização da Estrada do Colono

Foi o primeiro a colocar a Unesco no seu devido lugar. Organismo da ONU ­ Organização das Nações Unidas, voltado para o favorecimento de áreas tuteladas como Patrimônio Mundial, elegeu o Parque Nacional do Iguaçu como um desses santuários da humanidade. Ungiu e abençoou, mas abandonou o afilhado à própria sorte. Como bem disse Paulo Pimentel, até hoje não veio qualquer verba que justifique a reverência que o governo brasileiro faz à Unesco. O ministro do Turismo, o paranaense Rafael Greca, quer a Estrada do Colono aberta. O ministro do Meio Ambiente, José Sarney Filho, está temeroso com as ameaças da Unesco de retirar o Parque da lista dos seus protegidos.


Cataratas do Iguaçu - Vista parcial - Foto: Gernot Berger

Quintal de estranhos.

Os argumentos de Paulo Pimentel foram na medida dos interesses do Paraná. Convocou Sarney Filho a vir aqui e se demorar na região, constatando que a titularidade da Unesco não acrescenta nada na qualidade de vida e na economia dos habitantes da fronteiras. Pelo fato de não ter mandato, de conhecer as entranhas do poder, e de usufruir dos meios de comunicação sem vetos e sem reservas, o ex-governador falou alto e bom som : às favas com a Unesco. Um protesto muito brasileiro e apropriado para a forma com que a comunidade das nações encara o Brasil e seus assuntos.

Na verdade, e agora deixe-se o empresário Paulo Pimentel fora disso, o que se observa é que essa alcunha de "patrimônio da humanidade"cabe bem às multinacionais de comunicação. A parceria com essas entidades internacionais forra de importância , aos olhos desavisados dos brasileiros, as iniciativas próprias do Brasil, mas que não conseguiriam respeito e lugar no contexto mundial sem a chancela de siglas consagradas pelos países desenvolvidos.

Assim é que precisamos da anuência da Unesco para dizer que nosso potencial nativo é soberano. Precisamos ser levados pela mão para podermos entrar nas discussões globais. Precisamos aprender inglês, sob o risco de nos tornarmos mudos. Precisamos dolarizar, senão a nossa economia acaba. Acaba como, se ainda nem começou? Precisamos tudo que os donatários do mundo querem, menos o que nos interessa de perto e impulsiona o nosso desenvolvimento. Voltando ao Paulo Pimentel, o que precisamos mesmo é mandar uma porção de empecilhos "às favas". Quando a questão é regional, sai no prejuízo quem acha melhor sustentar os interesses alheios.( Mais informações voltar a Home e consultar edições anteriores , dia 5 de fevereiro)

 

 

 

A Estrada do Colono está fechada pela justiça federal desde setembro de 1986. A população da região da fronteira Oeste-Sudoeste reabriu a estrada à revelia da lei há dois anos, e assim tem mantido os 17,6 quilômetros com tráfego precário, enquanto
contemporiza com o Ibama e os foros políticos nacionais.




A alegação dos ecologistas é que a Estrada do Colono afeta o ecossistema do Parque Nacional do Iguaçu. Se for feita uma Sabatina funda nos conhecimentos desse grupo de pessoas ( com razoáveis exceções ) será fácil perceber que são generalistas bem intencionados, mas sem autoridade efetiva fundada na ciência .



A Estrada do Colono corta o Parque Nacional do Iguaçu, ligando as regiões
Oeste e Sudoeste do Paraná, na fronteira com a Argentina. Durante o governo José Richa (amigo pessoal do presidente da República e hoje afastado da política) foi feito o estudo para uma estrada parque, com todos os cuidados e reservas . Pelo desinteresse da época (85-86) , refletido no governo de seu sucessor em mandato tampão, João Elísio Ferraz de Campos, não deu em nada.