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< capa da edição de 01 de abril de 1999




Um atalho para o governo
Marilena Braga

Autoridade sonegada. Comunicação interrompida. Intermediação de problemas que não foram criados por sua administração. A todos esses obstáculos a vice-governadora Emília Belinati , governadora em exercício do Paraná , vem enfrentando sem palavras ácidas ou gestos mesquinhos. Ao saber por terceiros que o secretário da Fazenda havia tomado atitudes sem consultá-la , fez circular um comunicado a todos os secretários de Estado informando que todo ato administrativo deveria primeiro passar pelo seu gabinete. Igual paciência teve com a manifestação dos professores que, sabedores da ausência do governador e da ineficácia de seus protestos, se postaram em frente ao Palácio Iguaçu , alguns mais radicais forçando as portas, barrados pela segurança. Lá dentro, a vice na função de governadora mediava com uma comissão de representantes da classe.

A intervenção da secretaria da Fazenda foi séria. Fez com que as estradas federais fossem vigiadas para que as carretas transportando carros de outros estados ( que baixaram a alíquota de ICMS para 9%, enquanto o Paraná manteve os 12%) pagassem a diferença , ou não teriam direito a emplacamento no Paraná. Boa medida, só que a governadora em exercício não estava sabendo de nada. Quanto aos professores, a grita era justa : reclamavam o terço de férias a que tinham direito, e que o estado não paga porque confessa não ter dinheiro. As reivindicações do professorado são crônicas. Não cabe a um governo de dez dias resolvê-las.

Desde que assumiu em primeiro de janeiro, é a segunda vez que Jaime Lerner deixa o Paraná para viagens ao exterior. Emilia Belinati , ao ficar em seu lugar, não ocupa apenas uma função secundária. É hoje a principal depositária das queixas dos prefeitos . Se a ela recorrem, é porque sabem que sua presença na chapa vencedora de outubro do ano passado foi decisiva. Sem Emilia Belinati , Jaime Lerner não teria conseguido o segundo mandato. Desde o primeiro governador eleito após o retorno das eleições diretas, nenhum vice teve expressividade eleitoral. José Richa, eleito em 1982, tinha como susbtituto João Elísio Ferraz de Campos. Em votos, não somava. Álvaro Dias, seu sucessor, em 86, levou como vice Ary Queiroz . Uma ficha técnica, mas eleitoralmente nula. Roberto Requião, em 90, teve Mário Pereira na vice. Ex-deputado estadual, seu potencial de voto só bastaria para um novo mandato.

Com Emilia Belinati é a primeira vez que o prestígio eleitoral faz diferença. Casada com o prefeito de Londrina ­ Antonio Belinati tem mais de 80% de aprovação popular ­ viu o filho de 23 anos , Antonio Carlos Belinati, ser eleito deputado estadual com 87 mil e 500 votos, o segundo mais votado do estado, atrás apenas do decano da Assembléia, símbolo do poder no Paraná, deputado Anibal Curi. Vice-governadora pela segunda vez, somou à votação de Lerner para o governo , só na região de Londrina , 182 mil votos. Se for seguido o resultado final das eleições, quando Lerner venceu Roberto Requião por 245 mil votos, chega-se à conclusão que o resultado de Londrina e municípios vizinhos, onde a campanha foi desenvolvida de perto pela vice-governadora, foi fundamental.

Com apenas 156 mil votos à frente de Requião em Curitiba , cacife eleitoral de ambos, mas com domínio político de Lerner há dez anos, bastaria que o governador eleito tivesse um candidato a vice na sua chapa sem expressão eleitoral em Londrina e região , onde Requião conseguiu 120 mil votos. A diferença na Capital seria neutralizada. Por isso Emilia Belinati não é uma vice-governadora que o governo possa desconsiderar. Deixou isso claro, com atitudes , quando não foi consultada na formação do secretariado. De Londrina, não foi escolhido nenhum nome de seu particular agrado. Depois do episódio, recolheu a mão estendida . Não só para Lerner, mas para outros que os Belinati ajudaram a eleger. Enquanto Lerner cumpre roteiros fora do Paraná, Emilia interioriza suas viagens. A mão recolhida alcança agora os prefeitos do Paraná. Paciente e calada a vice-governadora prepara seu futuro.Que parece não ter nada a ver com o futuro imaginado pelo governador.